Terça-feira, 22 de Fevereiro de 2005

O Fígado

O fígado é o maior, um dos mais importantes e mais misteriosos órgãos do nosso corpo. Regularmente apelidado de "fábrica química" do organismo, regula os níveis das principais substâncias químicas do sangue. O fígado pesa aproximadamente 1 a 1,5 kg e situa-se na parte superior direita da cavidade abdominal.
As funções desempenhadas pelo fígado são muito variadas, complexas e extremamente importantes. Este órgão produz proteínas essenciais para o plasma sanguíneo, como por exemplo a albumina, os factores de coagulação, a globina e proteínas importantes no fortalecimento do sistema imunitário. O fígado produz colesterol e interfere na metabolização das gorduras. Este órgão capta ainda a glicose que não é imediatamente necessária às células e armazena-a sob a forma de glicogénio, libertando-o, posteriormente quando é necessária energia. O nível de aminoácidos é também regulado pelo fígado. Outra função vital do fígado é a produção da bílis, uma substância de cor amarela e de sabor amargo, importante, pois ajuda a desdobrar e a absorver gorduras no intestino delgado. O fígado actua também de modo a libertar do sangue metabolitos dos medicamentos e de substâncias venenosas (cogumelos venenosos, por exemplo): absorve as substâncias nocivas, altera a sua estrutura química e excreta-as na bílis. São ainda armazenados no fígado o ferro, as vitaminas e outros nutrientes essenciais.
Como se pode perceber, o fígado é um órgão bastante complexo pelas funções que executa, sendo também a sua capacidade de recuperação notável. Podem ser removidos ou destruídos até cerca de três quartos do seu volume sem que se torne insuficiente. O tecido restante cresce até recuperar o tamanho e a forma originais. Contudo existem inúmeras doenças que afectam o fígado. Uma das afecções mais comuns é a hepatite. Esta é uma inflamação do fígado que pode dever-se a um vírus ou ter outras causas, como o excesso de álcool, medicamentos ou drogas. Entre os vários tipos de hepatite, os mais comuns são: a hepatite A, disseminada, por exemplo através de água imprópria para consumo e condições de higiene precárias; a hepatite B, contraída por contaminação sanguínea e relações sexuais; e a hepatite C, cujo vírus é diferente do da hepatite B, mas que se transmite através do sangue, principalmente através da partilha de agulhas. transfusões contaminadas, instrumentos de corte e/ou perfuração. A maioria das pessoas recupera de uma hepatite A sem graves lesões hepáticas. Porém, a hepatite B e C podem evoluir e provocar outras doenças hepáticas graves, como a cirrose ou o cancro do fígado, por exemplo.
Outra doença que afecta o fígado é a cirrose. Existe uma tendência para crer que a cirrose apenas afecta os indivíduos do sexo masculino que cometem excessos alcoólicos. Na verdade, esta afecção pode atingir de igual modo homens e mulheres e, pode resultar de infecções provocadas pelos vírus da hepatite B ou C, bem como do excesso de álcool ou certos medicamentos, entre outras causas.
Nem todos aqueles que ingerem álcool, mesmo em excesso, desenvolvem insuficiências hepáticas, facto que permanece ainda inexplicável. Contudo é sabido que o excesso de bebidas alcoólicas pode levar ao que se chama de "fígado gordo" (esteatose hepática), caracterizado pelo aumento de volume das células do fígado, devido ao excesso de gordura. Actualmente, são cada vez mais comuns os casos de doenças hepáticas directamente relacionadas com os hábitos alimentares desregrados. Curiosamente, o facto do poder de compra ser mais elevado nos dias que correm faz com que a maioria das pessoas se alimente de forma incorrecta: são ingeridas diariamente em excesso a carne, as gorduras, o álcool, "petiscos", o que acaba por sobrecarregar o metabolismo do fígado. É cada vez mais comum verificar, nas análises de rotina, níveis elevados de transaminases (GOT, GPT, Gama GT, colesterol, entre outros) provocados por uma sistemática má alimentação. Estes níveis podem também verificar-se em pessoas que trabalham em ambientes com compostos aromáticos com valores acima da média, como as refinarias, por exemplo.
As doenças do fígado podem ser difíceis de detectar, pois os seus sintomas são geralmente vagos e podem referir-se a outras patologias. Há, geralmente, uma sensação de mau estar geral sem causa aparente. Salientam-se outros sintomas como a fadiga e a fraqueza, perda de apetite, náuseas e vómitos, perda de peso, dor ou desconforto no abdómen, febre, comichão e tendência para aumento do volume do fígado. Outros sintomas, como por exemplo a icterícia, manifestam-se quando já há uma evolução da doença.
A saúde do fígado depende em grande parte dos nossos hábitos alimentares, como se pode depreender. As refeições deverão ser repartidas, equilibradas e fornecer maioritariamente calorias e proteínas para manter ou diminuir a tendência de perda de peso. Deve preferir alimentos ricos em hidratos de carbono complexos, evitando os hidratos de carbono simples (açúcar, farinhas não integrais, etc.) e excluir da dieta todas as gorduras saturadas, a carne, o queijo, a manteiga, os fritos e os molhos, entre outros. Contudo, são importantes os ácidos gordos essenciais, como os óleos vegetais de cártamo e linho e também os óleos de peixe, que devem ser consumidos com moderação. Deve também aumentar a ingestão de alimentos ricos em fibras, como os cereais integrais, frutas, vegetais e leguminosas (como a soja) e beber sumos de fruta e vegetais e chás.
É importante excluir alimentos hepatotóxicos como o álcool, principalmente em casos cuja doença tenha sido directamente originada pelo consumo excessivo desta substância. sempre que possível devem ser evitados, entre outros, os calmantes e analgésicos, nomeadamente o paracetamol.
Para além de uma alimentação correcta ser fundamental na regeneração do fígado, existem alguns suplementos alimentares que podem ser benéficos.
Assim, para além de uma alimentação equilibrada, existem alguns nutrientes específicos que podem ajudar em algumas inflamações hepáticas. Apesar dos inúmeros avanços da medicina, com os transplantes hepáticos e medicamentos antivíricos, existem alguns suplementos naturais que podem ajudar. As vitaminas do complexo B, especialmente a vitamina B-12 e o ácido fólico, tendem a diminuir em caso de doença hepática, pelo que é recomendada a suplementação. Alguns nutricionistas recomendam doses elevadas de vitamina C, pois são da opinião de que esta vitamina ajuda a reduzir inflamações hepáticas, como a hepatite.
No que respeita aos minerais, o selénio, devido às suas características antioxidantes, parece ajudar a reduzir a incidência de hepatite. Outros nutrientes antioxidantes podem ser úteis, pois ajudam o fígado a ganhar imunidade.
Suplementos como a lecitina e os factores lipotrópicos (colina, inositol e L-metionina) têm apresentado bons resultados na prevenção da esteatose hepática ("fígado gordo"), da destruição das células hepáticas e ajudam a proteger o fígado dos excessos alcoólicos. O ácido lipóico é também recomendado por muitos nutricionistas no tratamento de inflamações hepáticas, devido ao facto de actuar como desintoxicante no fígado, protegendo-o do álcool e da exposição a metais pesados.
Existem também alguns aminoácidos que actuam beneficamente sobre o funcionamento do fígado. De entre eles, destacam-se, a taurina, o SAM (A-Adenosil Metionina), o NAC (N-Acetil-Cisteína) e os BCAA (Aminoácidos de Cadeia Ramificada).
No que respeita ao sistema hepatobiliar (fígado e vesícula biliar), as plantas medicinais exercem três tipos de acções principais: a colerética, a colagoga e a de protecção da célula hepática. As plantas de acção colerética ajudam a aumentar a quantidade de bílis segregada pelo fígado. A bílis fica armazenada na vesícula biliar, até que a passagem dos alimentos provoque o seu esvaziamento para o intestino. Ajudando a aumentar a produção de bílis, as plantas com propriedades coleréticas descongestionam o fígado e favorecem a digestão. Este tipo de plantas é especialmente usado em alterações hepáticas. As plantas colagogas facilitam o esvaziamento da bílis contida na vesícula biliar para o duodeno, pelo que facilitam o correcto funcionamento do sistema biliar. Na presença de cálculos biliares, deverá ter especial atenção ao utilizar plantas com propriedades colagogas, pois poderá haver risco de obstrução do canal colédoco.
O cardo mariano (Silybum marianum) é uma das plantas mais utilizadas nas afecções hepáticas, devido ao facto de proteger a célula hepática, com resultados cientificamente comprovados, pelo que é usado na composição de muitos preparados farmacêuticos. O seu princípio activo, a silimarina, ajuda a regenerar as células hepáticas danificadas por substâncias tóxicas como o álcool, entre outras. As sementes dos frutos, as folhas e a raiz desta planta são usados em inúmeras afecções hepáticas: "fígado gordo", intoxicações, icterícia, hepatite e cirrose. Esta planta é também benéfica em tratamentos com quimioterapia, ajudando o fígado a suportar os efeitos secundários resultantes destes tratamentos químicos. No caso do extracto seco em cápsulas, deve optar por suplementos com um mínimo de 70 a 80% de extracto normalizado de silimarina, devendo tomar cerca de 140 a 210mg, três vezes ao dia.
Tal como o cardo mariano, a alcachofra (Cynara scolymus) faz parte da composição de diversos fármacos, devido às suas propriedades (colerética e antitóxica) sobre o fígado. Esta planta auxilia também o processo digestivo. Os princípios activos da alcachofra concentram-se sobretudo nas folhas, mas também se podem utilizar o caule, os capítulos florais e as raízes. Pode tomar a alcachofra em infusões, sumo (das folhas) ou cápsulas.
O Dente-de-leão (Taraxacum officinale), rico em vitamina A, B, C e D, é uma das plantas mais activas sobre a função biliar, pois é ao mesmo tempo colerética e colagoga, pelo que é usada na insuficiência hepática, hepatite e cirrose. Usam-se normalmente as folhas e a raiz, tanto em sumo fresco como em infusão. É também comum sob a forma de cápsulas.
Outras plantas como o boldo (Peumus boldus) e o rábano (Raphanus sativus), devido às suas propriedades coleréticas e colagogas, são utilizadas, como as plantas acima referidas, nas doenças do fígado. O boldo pode ser tomado em infusão (folhas) ou em cápsulas. O rábano (ou rabanete) pode ser comido cru, em saladas, por exemplo, ou em sumo fresco.
Todos estes suplementos que a natureza nos oferece, juntamente com uma dieta equilibrada, podem ajudar nas patologias descritas. Contudo, deverá ter em mente que as doenças hepáticas são graves, pelo que a opinião médica é imprescindível.
Relembro, mais uma vez, a importância dos cuidados alimentares: não deve ter por regra uma alimentação desmedida e desregrada. Existem ainda algumas medidas preventivas a realçar. Evite comportamentos de risco (drogas ilegais), pratique sexo seguro e crie bons hábitos de higiene. Pode também vacinar-se contra a hepatite B e hepatite A.

Pedro Lôbo do Vale
Médico

Editado por:
Vítor
(Algarvio)
isickull@sapo.pt

Nota do editor: Se estiver em tratamento com interferão e ribavirina não tome qualquer suplemento, medicamento ou planta referido neste artigo sem previamente consultar o seu médico.
publicado por ValNeto às 17:47

link do post | comentar | favorito
|
2 comentários:
De Anónimo a 24 de Fevereiro de 2005 às 18:27
O artigo me parece bastante elucidativo e de fácil compreensão.
Estou também completamente de acôrdo com a Nota do Editor e com a chamada de atenção da Marta. Chamo a atenção também para a utilização indevida ou excessiva de complexos vitamínicos. Val Neto
</a>
(mailto:hepatitec@netcabo.pt)
De Anónimo a 23 de Fevereiro de 2005 às 20:39
Esta nota do editor é muito importante. Os produtos naturais têm por vezes interferências com alguns medicamentos. Por exemplo, o hipiricão diminui o efeito contraceptivo da pílula contraceptiva assim como o efeito de alguns antiretrovirais. Por mais naturais que sejam, todos os produtos podem não se adaptar ao nosso organismo numa dada situação, por isso é sempre bom pedir conselho médico.
Mulher prevenida.Marta
</a>
(mailto:mamkf@hotmail.com)

Comentar post