Sábado, 15 de Janeiro de 2005

A grande dúvida: Existe ou não a cura para a Hepatite C?

Tenho recebido vários e-mails nos quais essa dúvida me é colocada, por pessoas que negativaram o vírus após o tratamento e também por pessoas que descobriram ser portadores e que estão à procura do tratamento ou que estão em vias de serem tratadas e ainda por pessoas que estão em tratamento. Vou colocar aqui duas opiniões para que cada um de nós as avalie. Uma é a do Carlos Varaldo, do Grupo Otimismo- Brasil. A outra é a de um Hepatologista, um dos maiores especialistas portugueses sobre o assunto, que não identificarei aqui pois não tenho autorização expressa dele para tal. Trata-se entretanto de um Hepatologista com H maiúsculo que merece a minha total confiança e que tem me ajudado de forma anónima a esclarecer dúvidas. Prefere o anonimato apenas para que não seja ainda mais "assediado" uma vez que dedica quase que a totalidade do seu tempo àquilo que é a sua natural vocação: Estudar, pesquisar o assunto e tratar dos seus pacientes, que não são poucos.

1 - Opinião do CARLOS VARALDO (extraído do e-mail enviado pelo Gupo Otimismo na sua mensagem de fim de ano intitulada "Pessimistas e otimistas na Hepatite C") :

«Iniciando o ano de 2005 nos deparamos com algumas notícias interessantes, uma dos pessimistas de plantão que sempre que podem tentam conseguir algum espaço na mídia para divulgar que a hepatite C não tem cura e, duas outras, uma de um outro médico contestando a notícia anterior ....

Vamos começar explicando a notícia dos pessimistas, publicada em Hepatology de janeiro/2005, onde um estudo feito em 16 pacientes pela equipe do Dr. Pham encontrou resíduos do vírus em todos os pacientes, assim, a conclusão desta equipe é que existe replicação em todos os pacientes e que pelo tanto é precipitado usar a palavra cura.

Porem um outro estudo publicado na mesma revista, o qual foi feito em 17 pacientes
que se encontram negativados entre três e oito anos mostrou que em 15 deles a
biopsia do fígado ainda mostrava que podiam existir linfócitos ou macrofagos com
resíduos do vírus. Mas o vírus não foi encontrado em nenhum tecido, o que indica
segundo, o Dr. Radkowski que coordenou a equipe de pesquisadores, que não se trata
de replicação e sim de vírus residual. Por este estudo podemos utilizar a palavra
cura.

O resultado destes dois estudos terá implicações potencialmente importantes na eterna discussão sobre se existe cura para a hepatite C, já que ambos os estudos confirmam a presença de baixos níveis do vírus em todos os pacientes já negativados.

Mas e o que isto significa para o paciente infectado? Acredito que absolutamente nada. Esta é uma discussão científica onde os infectologistas, seguindo este conceito de vírus residuais, acham que praticamente nenhuma doença por vírus, seja ele qual for, tem cura completa. Ou seja, o indivíduo nunca cura de uma infecção e deve ser acompanhado e receber cuidados médicos pelo restante da sua vida.

OK., concordo com isto, pois o ser humano é uma máquina altamente complexa e o futuro é uma incógnita, mas, para o paciente que tratou uma doença infecciosa como a hepatite C e, que pelos exames mostra que conseguiu eliminar o vírus do organismo, que o vírus não ataque mais o seu fígado, bom, este paciente está clinicamente curado, pelo menos por enquanto, e, se no futuro, daqui a cinco, dez ou cinquenta anos a doença voltar, bom, este será um problema, caso a pessoa ainda esteja neste mundo, a ser enfrentado na oportunidade.

O que interessa ao paciente é saber que, hoje, no seu dia atual, ele está livre do ataque do vírus e que seu fígado não esta sendo destruído. Hoje sabemos que pessoas que eliminam o vírus e mantêm as transaminases em níveis normais conseguem uma efetiva recuperação do fígado. E então, isto não é a cura clínica da doença?

Aqueles que eliminam o vírus, mas continuam com as transaminases elevadas, o que
pode ser causada por muitas outras condições, podem continuar avançando no seu dano hepático, mas, nestes casos cabe se pesquisar o porquê, qual a causa, que está afetando o fígado para manter as transaminases elevadas.

Não podemos ser simplistas e colocar a culpa de todo o que acontece no fígado ao vírus da hepatite C. Muitos outros problemas atingem nosso fígado e cabe ao médico descobrir a origem do problema.

Assim, vamos deixar os pessimistas de plantão falando que não existe a CURA EPIDEMIOLÓGICA, mas, temos certeza e podemos falar em alto e bom som que existe, sim, a CURA CLÍNICA, sendo esta a que verdadeiramente interessa ao paciente, saber, que o danado do vírus da hepatite C não esta atacando mais o seu amigo inseparável, o fígado.»

2- Opinião do HEPATOLOGISTA ( me foi enviada por e-mail em resposta a questões concretas colocadas por portadores do vírus que me têm contactado ):

«CURA - Muita gente tem medo em utilizar a palavra cura, já que só passaram cerca de 15 anos desde o início destes tratamentos.

De qualquer modo, tenho doentes meus tratados há 16 anos em que após o tratamento o ARN-VHC veio negativo e assim se mantém. Alguns até tinham cirrose e nunca tiveram problemas.

Há pouco tempo discuti esta questão da cura com um especialista em doenças infecciosas e ele achou que se poderia utilizar a palavra cura, já que se negativa um vírus de forma persistente. Só se pode falar em cura (os médicos actualmente preferem o termo resposta mantida) se 6 meses depois do fim do tratamento o ARN-VHC feito de forma qualitativa for negativo. Deste grupo, 98% vão ficar para sempre negativos (em princípio toda a vida).

Claro que um significado mais preciso e correcto só daqui a 20-30 anos...

Os doentes em que se verifica a cura mantêm geralmente o teste anti-VHC positivo. Mas são anticorpos, não é o vírus. Alguns, uns anos mais tarde negativam estes anticorpos, ficando sem nenhum vestígio da hepatite C »

O MEU COMENTÁRIO:

Penso que as duas opiniões publicadas acima são convergentes. no que diz respeito ao verdadeiro interesse do paciente, independentemente de questãoes semânticas ou de discussões académicas: A evolução da lesão hepática é travada e consegue-se mesmo a recuperação do fígado. Para mim isso é cura !

Para quem como eu conseguiu a cura mas gosta de jogar pelo seguro recomendo que continuem a desenvolver hábitos de vida saudáveis e fazer uma acompanhamento anual com o seu médico especialista, por mera questão de segurança e porque, como bem disse o Varaldo, os problemas do Fígado não podem ser debitados exclusivamente à Hepatite C. Recomendo também que continuem atentos e que sejam solidários com aqueles que ainda não a conseguiram !

Aos que não conseguiram, recomendo a manutenção de uma atitude positiva pois são significativas as evoluções no que diz respeito a novos tratamentos e novas pesquisas (vamos fazer um ponto da situação brevemente aqui no Blog )

O importante em Portugal nesse momento, para além da urgente necessidade de se criar uma Associação actuante de Portadores do vírus, é identificar os portadores ( rastreio ) , analisar caso a caso a necessidade de tratamento e se for o caso tratá-los !


Val Neto
e-mail: hepatitec@netcabo.pt







publicado por ValNeto às 16:51

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2 comentários:
De Anónimo a 26 de Janeiro de 2005 às 10:36
É essa também a minha opinião Marta. Mas o facto é que a comunidade científica prefere jogar pelo seguro e fala em "cura sustentada" ou "resposta mantida", pelo facto de que ainda não se passaou tempo suficiente para usarem o terno cura definitiva. Isso acaba por "baralhar" um bocado a cabeça de quem pensava estar definitivamente curado. Pensamos assim: Afinal depois de todo o meu sacrifício, não valeu a pena o tratamento ? E sempre vale porque mesmo os que não conseguem a cura, controlam a evolução da doença.

Outra coisa os percentuais de cura já andam na casa dos 56%, mas isso é em média, pois variam conforme o genotipo do virus. No genotipo 3, anda à volta dos 80%, por exemplo. Val Neto
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(mailto:valneto@netcabo.pt)
De Anónimo a 26 de Janeiro de 2005 às 08:26
Claro que existe cura para as hepatites! Senão porque andavam as pessoas a fazer esses tratamentos tão pesados? Com o actual tratamento (interferon pegilado + ribavirina) a taxa de sucesso é de 50%, ou seja, 1 paciente em cada 2 consegue curar-se com o tratamento. A outra metade pode tentar novamente... Com amizade, MartaMarta
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(mailto:mamkf@hotmail.com)

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