Terça-feira, 11 de Janeiro de 2005

A burocracia e desorganização na Saúde levam ao desespero os portadores da Hepatite C

Saber-se portador de uma doença que pode ser crónica, grave e até mortal não é uma experiência agradável para ninguém. A falta de informação oficial e credível sobre o assunto complica ainda mais as coisas. O preconceito a ela associado não ajuda em nada... Entretanto o verdadeiro labirinto burocrático que um portador do vírus, sem condições de recorrer a consultas médicas e análises particulares, tem que percorrer para que possa avaliar correctamente o estágio em que se encontra a sua doença leva muitos de nós ao desespero, mesmo antes de sabermos se o nosso problema tem ou não necessidade de ser tratado com os medicamentos disponíveis que podem levar à cura. Passo a transcrever o e-mail que recebi de um portador do vírus, a dar-nos conta da sua história, bem ilustrativa do que se passa em Portugal:

«Minha hepatite foi descoberta em 1995. Nunca tive sintomas. Na altura em que me detectaram o vírus foi no Hospital de Santo António no Porto pois eu estava lá a viver. Nunca me souberam bem informar sobre o meu estado e limitaram-se a dizer-me que minha Hepatite não estava activa e que não precisava de me preocupar.

Como nunca me senti mal nem nada deixei o tempo ir andando até ter adquirido há cerca de 2 anos internet em casa. Foi aí que me comecei a aperceber do grave problema que tinha. Fui ao meu médico de família e ele disse que não podia fazer muito por mim e iria passar uma credencial para o Hospital Garcia de Orta na especialidade de Gastroenterologia. Só recebi a carta do hospital passado quase dois meses da consulta no médico de família. No respectivo dia fui ao hospital para ir à consulta e fui atendido por um Doutor que até foi simpático e mandou-me fazer umas análises que ele me disse que eram muito caras mas que se eu assinasse um termo de responsabilidade poderia fazer essas análises num laboratório exterior ao hospital que não pagaria nada. Assim ouvi, melhor o fiz, no final da consulta e depois de o Doutor me marcar a próxima consulta fui à secretaria para entregar e assinar os tais termos de responsabilidade. Julgo (não tenho certeza), que eram duas análises, uma delas para definir o genotipo do vírus e a outra acho que era para avaliar a carga vírica ou algo que minha ignorância não me deixa explicar melhor. Uma dessas análises fiz no hospital mesmo e a outra foi feita no exterior num laboratório de análises clínicas. Bem, no dia da outra consulta lá me apresentei ao doutor e ele pediu-me as análises que fiz no exterior e eu disse que fui ao laboratório mas que me disseram que eu não podia levar as análises e que não me preocupasse que elas iriam directamente para o hospital. Ou seja, o médico não tendo qualquer tipo de análises pediu-me para que o informasse quando elas estivessem prontas para poder marcar uma nova consulta para as analisar pois assim não podia fazer nada. Até aí tudo bem mas que culpa tenho eu de as análises não terem ido para o hospital? Fui ao laboratório e disseram-me que o hospital já as tinha e etc etc.

Andei assim uns meses a aguardar que o hospital me dissesse algo e nada soube, vindo depois a saber que o meu médico do hospital tinha ido para a reforma.

Por tudo isto resolvi em Dezembro passado ir novamente ao médico de família e expliquei a situação, ele por sua vez marcou-me novas análises de rotina as quais eu fui fazer e voltei em nova consulta para as mostrar, ele disse-me que iria passar uma nova credencial para o hospital de Almada para recomeçar tudo de novo! Fiquei indignado mas tudo bem, lá fui eu para o Garcia de Orta entregar a carta do médico de família. Hoje recebi a carta do
Hospital a dizer que tenho nova consulta...em Junho de 2005!!!!:...

Por amor de Deus...isto não é justo, andei aqui de um lado para o outro, a fazer análises, a assinar termos de responsabilidade, a tentar ser informado e de nada me valeu. Pura e simplesmente nem sequer o novo médico deve ter visto o meu processo pois se o visse não me marcaria uma consulta que julgo de certo modo urgente para daqui a meio ano quase.

E é isto o estado da nação...estou desacreditado e julgo que vamos de mal a pior. Só espero que nada me aconteça até daqui a meio ano pois até lá ainda nasce e morre muita gente.

Os nossos ministérios adoram burocracias já para não falar de os serviços públicos funcionarem mal.

E é assim que nos atendem no Garcia de Orta.

Por respeito a todos os médicos não coloquei aqui os nomes dos profissionais e porque inclusive um deles foi para a reforma e eu respeito para ser respeitado.

Desculpem o desabafo mas precisava de partilhar isto.

Muito Obrigado a todos vós e tenham muita força!
Felicidades

Vitor Costa»

MEU COMENTÀRIO FINAL :

O Caso do leitor Vitor Costa foi detectado há 10 anos atrás! Ele já podia estar curado ou no mínimo ter a situação sob total controlo... Há pelo menos dois anos que vive na ansiedade e incerteza provocadas pelo desconhecimento do seu verdadeiro estado de saúde. Vive há dois anos com o fantasma da incerteza ! Quer saber e tem o direito de saber, se o seu fígado apresenta ou não algum tipo de lesão e, se for o caso, quer e tem o direito de tratar-se, antes que seja tarde ! Não quer passar mais nem um dia da sua vida com uma hipotética guilhotina por sobre o pescoço! É um direito seu consagrado na Constituição Portuguesa e na carta dos Direitos Humanos das Nações Unidas, da qual Portugal é signatário !

Casos semelhantes têm-me sido relatados por e-mail e reforçam a minha convicção de que só quando estivermos ( nós os portadores, amigos e familiares ) unidos e organizados poderemos fazer face a situações tão desesperadoras e mesmo revoltantes. Sei perfeitamente que os problemas da Saúde Pública não afectam somente os portadores das Hepatites virais. Entretanto outras doenças graves ou crónicas como a SIDA, a diabetes, etc... contam com Associações fortes e actuantes. Nós os portadores das Hepatites virais estamos entregues "aos bichos" ou à nossa própria sorte e daí a importância de urgentemente nos organizarmo!

Faço também um apelo a todos os orgãos de comunicação que recebem a nossa mailing list para que nos auxiliem e denunciem essa e outras situações. Lembrem-se de que as estimativas oficiais apontam para 150 a 200 mil infectados em Portugal e que somente 15 mil o sabem ! Esse para além de ser um problema nosso ( dos infectados, amigos e familiares ) é também um grave problema de toda a sociedade! O "Bichinho" da Hepatite C, esse vil, astuto e silencioso inimigo da saúde, não escolhe profissão, cor, religião, sexo ou comportamento! Ele pode já ter batido ou vir a bater à porta de qualquer um !

Val Neto
e-mail : hepatitec@netcabo.pt


publicado por ValNeto às 20:03

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1 comentário:
De Anónimo a 26 de Janeiro de 2005 às 08:29
Faz muito bem em comentar pois temos de saber o que se passa pelo país fora para poder agir...
Um abraço, MartaMarta
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(mailto:mamkf@hotmail.com)

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