Terça-feira, 2 de Novembro de 2004

Dúvida de uma leitora : o médico de família, não deu, ou não quis dar muita importância ao facto...

«Olá, desde já os meus parabéns porque achei o blog muito interesante e com informação bastante relevante. Nos dias que correm é importante termos informação acerca de tudo o que nos rodeia, nomeadamente as doenças contagiosas e que podem ser fatais se não forem detectadas a tempo, e mesmo quando detectadas, considero importante ter informação adequada acerca da mesma, de modo a dar origem a uma possível cura.

Apesar de ter lido no blog algumas informações sobre a doença, gostaria de expôr o meu caso:

O meu irmão tem 36 anos, é ex-toxicodependente, embora consuma esporadicamente canabis. Começou a consumir heroina aos 20 anos de idade, e também cocaína, embora esta última com menos frequência. Fez alguns tratamentos de desintoxicação e teve alguns anos sem consumir aquilo a que vulgarmente chamamos de "drogas pesadas" apesar de ter tido duas ou três recaídas. Neste momento não consome as ditas "drogas pesadas" há já dois ou três anos. Há um tempo atrás (mais ou menos oito, dez anos) foi-lhe detectado hepatite C, mas nós, a família, nem sabíamos muito bem o que isso queria dizer, na altura o médico de família, não deu, ou não quis dar muita importância ao facto. Neste momento ele encontra-se bastante preocupado e angustiado com a situação, queixa-se bastante do fígado e tem dificuldade em alimentar-se. Gostaria de saber se no caso dele há possibilidades de cura e quais os exames a fazer para ter uma ideia do ponto da situação&nb sp;em que se encontra a doença do meu irmão. Ao fim ao cabo, gostaria que me desse uma "luz" sobre o problema. Obrigado.

P.S. Não sei se a minha mensagem vai estar exposta no blog, mas caso esteja, gostaria de ficar anónima (sem o meu endereço de e-mail), não por vergonha que reconheçam a meu endereço de e-mail e descubram que o meu irmão tem hepatite C e todo o seu historial em relação às drogas, pois muito orgulho tenho eu em ter um irmão como tenho, mas porque a sociedade em que vivemos não está preparada para aceitar certos factos, embora muitos "modernismos" que se dizem por aí, continuamos a viver numa sociedade preconceituosa, onde pessoas com doenças contagiosas são vistas como bichos, o que é uma pena, se o azar lhes batesse à porta, se calhar tinham outra percepção de como são as coisas, de certeza que não iriam ver o próprio filho ou um irmão como se fosse um bicho, mas sim tentar dar todo o apoio possível e necessário. Todos nós temos "telhados de vidro", e não sabemos o dia de amanhã...»

O MEU COMENTÁRIO: Infelizmente, há alguns anos atrás e ainda hoje, há que se dizer com frontalidade, muitos médicos de família e não só estão mal informados a respeito da hepatite C, um pouco por culpa da complexidade da doença e do (relativamente) curto espaço de tempo que passou desde que foi identificada (1990). Mas vamos ao que interessa que é a saúde do seu irmão, com a devida ressalva de que sou um leigo:

1º) Deve solicitar e, se for o caso, exigir da médica de família uma consulta com um especialista (hepatologista ou gastroenterologista). Este deverá solicitar análises ao sangue para um exame que se denomina normalmente RNA ou exame da carga viral e a seguir uma biópsia ao fígado ( há um post algures abaixo que fala da biópsia que não é tão complicada quanto o nome possa sugerir. ). Pelo que pude me aperceber entretanto existe mesmo a hipótese do seu irmão estar entre os cerca de 25% das pessoas que entram em contacto com o vírus e que o eliminam de forma espontânea. Se for realmente portador crónico pode alcançar a cura ou na pior das hipóteses fazer estacionar os danos ao fígado, isso desde que seja tratado.

2º) Quanto mais jovem se foi contaminado, mais hípóteses se tem de que o vírus não cause danos hepáticos, mas isso não é um dado assegurado, por isso a conveniência das análises e da biópsia. Esse entretanto é um ponto que conta a favor dele.

3º) O fígado, via de regra, não dói. Por isso chamam a Hepatite C de doença silenciosa. Normalmente só damos com ela por acaso. Essa dor que o seu irmão sente pode ser , por exemplo uma gastrite, uma ulceração, enfim... Na consulta com o especialista ele vai referir o que sente e com certeza lhe serão solicitados os exames para avaliar correctamente a situação. Recomendo que se informem sobre o assunto ( no lado esquerdo do blog há um link para a página da editora Quimera onde encontra informação sobre o livro "120 perguntas sobre a Hepatite C" que eu pessoalmente considero um bom livro) , para poderem avaliar também com mais segurança os procedimentos médicos e se tiverem dúvidas, não hesite em contactar-nos. Um abraço e força ! Ps: Diz ao seu irmão que ele tem sorte de ter uma "mana" como você ! ;-)

Val Neto






publicado por ValNeto às 21:52

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3 comentários:
De Anónimo a 3 de Novembro de 2004 às 13:13
Os tratamentos têm evoluido e apresentam uma eficácia cada vez maior, que pode entretanto variar de acordo com o genotipo do virus, e com a extensão de possíveis danos hepáticos já causados. Eu, se fosse a ti, ia atrás de uma segunda opinião médica, de preferência com um especialista que tenha uma boa experiência no tratamento de pacientes com o mesmo problema. Era importante também que nos dissesse se já fez ou não a análise da RNA ( Carga Viral ) e mesmo uma biópsia para saber se o vírus já começou a "atacar" o fígado ou não. Força, boa sorte e em caso de dúvidas não hesite em contactar-nos.Val Neto
(http://www.valneto.com)
(mailto:valneto@netcabo.pt)
De Anónimo a 3 de Novembro de 2004 às 12:57
Eu sou seguida à cerca de 6 anos por um médico especialista em gasteroenterologia mas a realidade é que ele sempre me desanconselhou qualquer tipo de tratamento por achar que não são eficazes, mas eu ouço algumas pessoas a dizer que se curaram e não sei o que pensar ou fazer. È certo que não passo muito mal, e a única coisa que tenho é um ligeiro cansaço, e às vezes fortes dores de cabeça acompanhadas por vómitos. Gostava que me dessem uma dica do que devo fazer
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De Anónimo a 3 de Novembro de 2004 às 02:30
Boa noite, quero comentar esta situação pois estou totalmente de acordo com o que diz esta irmã há cerca da sociedade e dos referidos preconceitos e da incapacidade e indisponibilidade da mesma lidar com eles, porque para mim é assim ou se sabe aquilo que se diz ou então cala para não sair asneira, quando se pretende ajudar alguém próximo que se faça a exemplo desta irmã, tenta-se informar o melhor possível e tal como disse o Val Neto primeiro ouvir os especialistas e depois acho que é positivo a troca de informações e experiências entre pacientes, familiares, amigos, pessoal técnico.
Ou seja este blog é muito importante por os mais variados motivos mas é urgente que exista uma associação de doentes vhc activa pois à muita gente envolvida e a sofrer em silêncio. Muita Força para esta irmã, carlao
carlao
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